Um ensaio filosófico sobre o filme “A Origem”

Para pular a parte das explicações preliminares (que eu acho um troço chato) sobre o filme Inception (em português, A Origem), deixo aqui um link para um artigo explicativo sobre o mesmo (ficha técnica, autor, ano de lançamento, sinopse, etc.). Se preferirem voltar somente após se inteirarem do filme, basta acessar: http://somostodosum.ig.com.br/conteudo/c.asp?id=10141.

Após assistir ao filme A Origem, do diretor de Amnesia e Insomnia — Crystopher Nolan , protagonizado pelo hollywoodiano Leonardo Di Caprio, muitas questões filosóficas e existenciais começaram a pulular em minha mente. Seríamos todos partes do “sonho” de Deus? Afinal, Deus “acordado” seria eterno. Para que partes da essência eterna de Deus pudessem se manifestar em estado diferente, Deus (o Todo não-personificado) teria de “dormir” também.

Após quase três anos mantendo esse tema em banho-maria, eis algumas especulações que teci sobre o filme:

O filme Inception inteiro (no caso, o enredo do “sonho”) é um esquema simbólico da estrutura da realidade. Isso tudo segundo a noção de que Deus é um sonhador que, com seu sonho, dá origem a uma realidade efêmera e fugidia.

Todas as essências e “leis” que regem as “camadas” de realidade (como que encapsuladas umas dentro das outras, e interdependentes) têm origem nas ideias subconscientes do ser “onírico” (Deus). Tudo subsiste (jaz sob condições) no sonho se — e somente se — Aquele está sonhando (o que, para Ele, é uma ilusão). Quando Aquele “acorda” de seu sonho, então toda a estrutura “subsistente” do sonho deixa de existir — a saber, a nossa estrutura da realidade.

Aí vem a pergunta: quando, então, “morremos”, acordamos do “sonho” e entramos na realidade existente (livre de condições)?? Resposta: Não!

Quando digo que “morremos” aqui, quero dizer que dormimos aqui e acordamos numa camada acima. Mas, nossas essências continuam a constituir elementos do “sonho” do Grande Sonhador. Tudo que subsiste (o que pensamos existir como Universos e modos de existência), subsiste como elementos e camadas do “sonho” de Deus. Assim, em última instância, tudo é ilusão, sem contudo ser irreal. É real, mas subsistente, dependendo de condições extrínsecas (inacessíveis aos modos de subsistência). São ilusões eficazes – eu diria. O real existente é dado apenas pela Natureza do Sonhador fora do sonho: não influi no sonho, mas, ao mesmo tempo, sustenta a Mente [de Deus] que dá origem a ele.

 Assim, a morte de nosso corpo físico não significa mesmo o fim. Como no filme, a transição (desencarne) da essência de cada um faz-nos apenas passar ao Limbo (como a esposa falecida do Cobb), em que a essência age apenas como num sonho dentro do sonho (lembram-se do que escreveu Edgar Allan Poe?). Após certo tempo, como eu penso, a essência transitória (assumida por uma ideia do Sonhador dentro de seu sonho) dissolve-se no Limbo, enquanto a ideia real ascende à apoteose da Mente do Sonhador – ou seja, é redimida, resgatada – segundo os esquemas simbólicos das Religiões que conhecemos.

 Todas as Religiões  e em especial, a Cristã  são formas de mantermos contato com a Essência do Sonhador, “negociando”, assim, nossa sobrevivência no “sonho” até que o mesmo se consuma no Ômega do Apocalipse.

 “Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para ser sábio.

Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia.

E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são vãos.”

 1 Coríntios 3:18-20

 De <http://www.bibliaonline.com.br/acf/1co/3>

O que o texto Sagrado acima nos quer dizer? A sabedoria do mundo é loucura porque reflete noções falíveis de um mundo ilusório. E mais: diante do Ser Sonhador (Deus – a Origem), é risível que elementos dependentes das condições de Seu Sonho se julguem existentes, quando não passam de essências dentro de uma realidade circunscrita e mutável. “O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são vãos”. Ou seja: o Sonhador conhece todos os elementos de seu sonho, inclusive as bizarrices pelas quais tais entidades transitórias (nós mesmos) se regozijam em ter como manifestações de “glória” nesse teatro de bonecos.

 Apocalipse significa Revelação. Ora, re-velare não quer dizer descobrir. Se “velare” é cobrir com um véu, re-velare é tornar a cobrir com o véu. Assim, a Revelação (Apocalipse) é um esquema simbólico para evitar que o sonho se dissolva, não obstante seu dever de falar a Verdade sobre esse “Sonho Universal” de Deus.

Não conseguimos provar a existência de Deus porque nós mesmos não existimos. Não haveria como nos dar conta da Existência (ausência de condições) sem que se dissolvessem nossos próprios veículos subsistentes (reais apenas enquanto sujeitos a condições). Provar que Deus existe seria como nos dar conta que nós não existimos como pensamos existir, mas que tudo é passageiro. Colaboramos e agimos dentro de um “sonho” de Deus, num ciclo de Dia-Noite de Brahman. Mas, ao contrário do que pensam, não estamos no Dia de Brahman só porque nos vemos “ativos”. Estamos ativos no sonho, não na vigília positiva de Deus. Assim, estamos na Noite de Brahman. Quando chegar o Dia de Brahman (período em que tudo é limitado como nossos mesmos dias), então o Universo “em sonho” se dissolverá como no filme.

 Fica ainda mais fácil entender, à luz do filme, o que se tem como inexorabilidade da Vontade de Deus. Tudo tende a acontecer conforme os desígnios da Mente Sonhadora. Tudo conspira. Todos os elementos das ideações subjetivas subconscientes tendem a aniquilar ou obstaculizar aquilo que se manifeste as emoções do Sonhador.

 Mas, Deus (o Sonhador) pode ter emoções? Não, é a resistência ao ato  único de Vontade do Sonhador – e a sua consequente e natural permanência – que cria a ilusão de oposição. Essa prolongada resistência do Elemento Primordial à Ação Primeira da Vontade de Deus é que faz com que todos os Universos e seus planos (o Sonho e suas camadas) venham a existir. Esses são os Rashit Há-Guilgalyim da Kabbalah – os Primeiros Redemoinhos.

 O Espírito Lúcífero Astral (a Luz Divina do Mundo Astral – o que eu suponho ser a relação Yetzirah em Atziluth) se arroja para longe da Vontade do Sonhador como resultado da Suprema Persistência da Ideia de Deus.

(Comentário escrito em: http://www.slideshare.net/isabelamd/ensaio-filos)

Leia mais: Relação entre o filme Inception e um poema de Edgar Allan Poe.

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Autor: Júlio C. & Kelen M.

Brazilian blogger. Amateur writer, poet and avid reader. Conservative, Catholic and Anti-Zionist. Commited to Kelen Moralles. // Blogueiro brasileiro. Escritor amador, poeta e leitor ávido. Conservador, católico e antissionista. Comprometido com Kelen Moralles. //

2 comentários em “Um ensaio filosófico sobre o filme “A Origem””

  1. Bastante bastante profundo, é de se pensar algumas horas. Todo mundo já teve aquela sensação, “quem garante que não estou dormindo? e minha vida eh um sonho”

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